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Economic Research

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Volume 9, Number 1
First Quarter 2007


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After the Boom, Housing Affordability a Growing Challenge

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A Falling Dollar: Good or Bad News?

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Dólar em Queda: Uma Boa ou Má Notícia?

Nos últimos anos, o dólar dos Estados Unidos desvalorizou-se em relação a algumas outras moedas fortes do mundo. Se essa queda ajuda ou prejudica a economia americana é uma questão de perspectiva.

currency cartoon graphic
Ilustração de Odie Swanegan

Alguns dos efeitos do dólar dos Estados Unidos mais fraco são facilmente visíveis para os consumidores americanos. As mercadorias e os serviços importados estão mais caros. Férias na Europa estão mais dispendiosas. O preço dos eletrodomésticos fabricados na China, dos carros alemães e de outras mercadorias importadas estão altos.

Para quem está fora dos Estados Unidos, um dólar mais fraco significa que seus investimentos naquele país estão perdendo valor, pois seus ativos valem menos quando calculados na moeda de seu país.

No entanto, para muitos economistas, a desvalorização do dólar americano ou a perda de seu valor em relação  a outra moeda ou grupo de moedas é, na verdade, um acontecimento positivo. Esses economistas acreditam que quanto mais o dólar se desvaloriza, mais ele ajuda a amenizar um dos maiores desequilíbrios da economia dos Estados Unidos: o déficit de sua conta corrente.

O papel do dólar no saldo da conta corrente
O saldo da conta corrente é o valor líqüido do comércio internacional de mercadorias e serviços de um país somado ao valor líqüido das receitas de pagamentos e transferências feitas para e de estrangeiros. Como ocorre nas economias mais desenvolvidas, o saldo da conta corrente dos Estados Unidos é liderado principalmente pelo desempenho da balança comercial, especialmente pela diferença entre os volumes de importação e exportação. Para os Estados Unidos, a força propulsora por trás do desequilíbrio da conta corrente, tem sido o crescente déficit comercial que os Estados Unidos vêm atravessando há mais de uma década.

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On the Web:
Fed Vice Chair Ferguson on the current account

Como corrigir os desequilíbrios externos nas contas dos Estados Unidos
Muitos analistas acreditam que um dólar mais fraco pode ajudar a diminuir os desequilíbrios na conta corrente dos Estados Unidos ao tornar as exportações americanas mais baratas e, portanto, mais atraentes aos compradores estrangeiros, ao mesmo tempo em que torna as importações menos atraentes aos americanos. Esse cenário às vezes é considerado um mecanismo de correção natural entre as economias abertas. Pelo menos dois exemplos recentes na história dos Estados Unidos comprovam esse tipo de ajuste.

A primeira correção ocorreu no início da década de 70, e o segundo episódio no final dos anos 80 (vide  tabela 1). Nas duas vezes a desvalorização cambial real ajudou a gerar um grande ajuste positivo na balança de pagamentos. Muitos economistas esperam que ocorra atualmente um acontecimento similar e procuram por sinais que indiquem que a desvalorização do dólar está ajudando a corrigir os desequilíbrios externos da economia americana.

Uma análise mais detalhada dos dados revela que de fato o dólar vem enfrentando uma tendência de baixa há mais de cinco anos, após atingir o pico durante o primeiro trimestre de 2002. O índice da taxa real de câmbio comercial  do Banco JPMorgan caiu cerca de 22% de fevereiro de 2002 até o final de 2006 (vide tabela 1). Outros índices demonstram uma queda similar. Por exemplo, o índice de taxa real de câmbio  da Diretoria do Federal Reserve, que usa uma cesta de países e pesos um pouco diferente, caiu cerca de 15%.

Comparadas às das moedas específicas, tais como aquelas dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, as taxas de desvalorização são ainda maiores. O dólar caiu cerca de 50% em relação ao euro, 39% em relação ao dólar canadense e 37% em relação à libra esterlina de 2002 a 2006 (vide tabela 2).

O desequilíbrio comercial e o conseqüente déficit da conta corrente dos Estados Unidos continuam a ultrapassar o crescimento do produto interno bruto (PIB), um acontecimento que tem deixado os economistas perplexos. Será que os mecanismos naturais de correção que funcionaram no passado não estão respondendo conforme a experiência havia demonstrado que o fariam?

Avaliação dos fatores de correção
Há algumas explanações para explicar por que a desvalorização do dólar americano não resultou em uma mudança no rumo da balança comercial. A evolução do consumo público e privado nos Estados Unidos, a política monetária americana e a capacidade dos importadores de repassarem os aumentos dos custos aos consumidores americanos contribuem para essa situação.

Tabela 1
Taxa Real de Câmbio  e o Saldo da Conta Corrente
Fonte: JPMorgan (taxa real de câmbio),
Bureau of Economic Analysis (saldo da conta corrente)

Consumo. Com o crescimento do PIB decorrente do consumo privado, a economia dos Estados Unidos tem crescido a passos largos desde a recessão de 2001. O forte consumo público e privado nos Estados Unidos manteve a alta demanda tanto por produtos importados quanto por produtos nacionais. Além disso, uma economia em crescimento também tende, naturalmente, a demandar maiores volumes de importações relacionadas às atividades produtivas, tais como combustíveis e suprimentos industriais, que permitem a continuidade da produção e a manutenção da taxa de crescimento.

Política monetária. Ao mesmo tempo em que certamente tem havido uma tendência geral de baixa da taxa de câmbio do dólar, houve algum movimento de alta entre 2002–06, fomentado pelas mudanças na política monetária americana.

Entre junho de 2004 e junho de 2006, o Federal Reserve aumentou, em escala crescente, as taxas pretendidas para os recursos federais, aumentando a demanda pelo dólar em um momento em que as taxas de juros no Japão eram praticamente zero e na Europa, 2%. Como investir em dólares deu mais retorno do que o investimento em algumas das principais moedas ofertadas, os dólares permaneceram atraentes para os investidores. Em parte, como conseqüência disso, o dólar americano valorizou em média 3,6% em 2005 (vide tabela 3).

Esse aperto das condições monetárias dos Estados Unidos e as baixas taxas de juros em outras economias desenvolvidas ajudaram a retardar a desvalorização do dólar dos Estados Unidos e permitiram, aos consumidores americanos, comprar bens importados mais baratos por um maior período de tempo.

Tabela 2
Moedas Estrangeiras Selecionadas em Relação ao Dólar dos Estados Unidos
Fonte: Haver Analytics

Importações. Muitas coisas mudaram no mundo desde o início da década de 70 e meados da década de 80. Especificamente, o mundo se tornou muito mais interligado, principalmente por meio do comércio, e a concorrência global contribuiu para a diminuição dos preços de bens e ativos. Embora os importadores dos Estados Unidos tenham enfrentado dificuldades para repassar os aumentos dos custos relacionados às flutuações cambiais, tais aumentos se tornaram ainda maiores nos últimos anos. Então, mais uma vez, mesmo diante de um dólar em queda, os consumidores americanos podem continuar  a comprar bens importados a preços relativamente baixos.

Até onde e em que ritmo?
De acordo com dados recentes do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o déficit da conta corrente americana era de US$857 bilhões em 2006, um pouco mais do que 6,5% do PIB do país naquele ano. Muitos economistas acreditam que seria difícil para os Estados Unidos prolongar essa situação indefinidamente, e que a desvalorização do dólar proporciona um mecanismo de ajuste da balança comercial. A difícil questão, entretanto, é qual velocidade e extensão dessa desvalorização são desejáveis.

Atualmente, a maioria dos analistas prevê uma desvalorização do dólar americano suave e gradual. A base dessa previsão é a crença de que esses fatores, que antes estavam contendo os mecanismos naturais de correção, estão menos fortes ou não mais presentes. Com as diferenciais das taxas de juros entre as moedas em um nível mínimo, não se espera que a política monetária proporcione mais apoio ao dólar dos Estados Unidos.

Tabela 3
Taxa Real de Câmbio Comercial do Dólar dos Estados Unidos
Fonte: Federal Reserve Board of Governors

Além disso, por ter o crescimento da economia, de certa forma, diminuído, muitos analistas acreditam que a demanda adicional por importados deve diminuir proporcionalmente, pois as importações para os Estados Unidos tendem a responder mais diretamente pelo crescimento do PIB ( acompanhando o crescimento da demanda) do que pelas mudanças na taxa de câmbio.

Por esses motivos, os analistas acreditam que parte do ajuste do valor do dólar provavelmente virá como resultado de um dólar desvalorizado, o que tornará as exportações mais atraentes aos estrangeiros, ao mesmo tempo em que tornará as importações mais caras para os consumidores domésticos. Outra parte da correção provavelmente se dará indiretamente por meio de mudanças no consumo e no crescimento da renda, já que o crescimento mais lento do PIB normalmente proporciona, aos consumidores, menos recursos para gastar em importados mais caros. Alguns analistas acreditam que isso já está acontecendo, pois o crescimento das exportações dos Estados Unidos já ultrapassou o crescimento das importações no último trimestre de 2006. Mas apenas um trimestre não significa uma tendência.

Estabilidade induz a correções futuras
Embora não haja um consenso quanto ao prazo ou a velocidade do ajuste do valor do dólar, os mecanismos naturais de correção parecem estar atuando. Contanto que a atual situação de forte crescimento global e expressiva estabilidade macroeconômica continue, os Estados Unidos deverão conseguir corrigir seus déficits externos lentamente, sem enfrentar maiores percalços.

Este artigo foi escrito por Diego Vilán, um economista da seção regional do departamento de pesquisas do Federal Reserve Bank de Atlanta.