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Economic Research

Comércio Internacional: Uma Fatia Maior da Economia dos Estados Unidos

Durante as últimas quatro décadas o comércio internacional cresceu de uma fatia relativamente insignificante para cerca de um terço da atividade econômica interna dos Estados Unidos. Para atender às preferências da economia global, os setores industriais e de prestação de serviços dos Estados Unidos especializaram-se e tornaram-se mais eficientes na produção de bens e na prestação de serviços apropriados ao mercado internacional.

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Hoje em dia, a maioria dos bens não é totalmente produzida nacionalmente; em vez disso, a produção espalhou-se por todo o mundo para ganhar eficiência máxima.

De camisetas e tênis a carros e computadores, muitos dos bens que os americanos consomem diariamente não são mais "fabricados nos Estados Unidos", e sim importados. Apenas em 2006 os Estados Unidos importaram o equivalente a US$2,2 trilhões em mercadorias e serviços.

O setor externo dos Estados Unidos—a soma de todos os bens importados e exportados—corresponde atualmente ao equivalente a 30% de toda a economia nacional, ou produto interno bruto (PIB). Há apenas quatro décadas, no entanto, a fatia do comércio exterior representava meros 10% do PIB. Para chegar a ser uma parcela do PIB durante os últimos 40 anos de prosperidade econômica significativa dos Estados Unidos, o setor externo teve de se expandir mais do que a expansão da economia como um todo. As importações, aumentando a uma taxa média de quase 11% ao ano, lideraram a expansão do setor externo, enquanto as exportações cresceram a uma taxa média de mais de 9% ao ano.

Além disso, os setores produtivos dos Estados Unidos tornaram-se cada vez mais dependentes dos mercados internacionais. Quase dois quintos das receitas auferidas pelas indústrias dos Estados Unidos resultam atualmente das vendas externas, comparadas aos menos de 15% há 40 anos.

Como o comércio internacional se tornou um componente tão grande e importante da economia americana? A resposta é simples: Como o mundo tornou-se mais integrado por meio do comércio e das finanças, a economia dos Estados Unidos adaptou-se, especializando-se na produção de determinados bens e serviços. Por sua vez, as forças econômicas que impulsionaram a expansão do setor externo também mudaram a produção subjacente e os padrões de consumo do país.

Para entender essas mudanças, é interessante dividir as importações e exportações de bens e serviços em categorias e estudar a evolução destas (vide a barra lateral). O entendimento dessa evolução nos mostra como a economia americana distribuiu seus recursos, e esses padrões de distribuição, por sua vez, demonstram de que maneira a economia americana tornou-se mais especializada nos últimos 40 anos.

Links Relacionados
On this site:
International Trade: A Larger Piece of the U.S. Economic Pie
On the web:
U.S. Census Bureau foreign trade statistics
Department of Commerce trade data
Bureau of Economic Analysis trade data

A receita para o crescimento das exportações
De 1967 a 2006 a exportação de serviços, com expansão de um ritmo médio de 10% ao ano, liderou o crescimento das exportações dos Estados Unidos. Conforme demonstra a tabela 1, aproximadamente um terço do total das receitas de exportação dos Estados Unidos agora advém da exportação de serviços, tais como serviços financeiros, telecomunicações e serviços de gestão e consultoria.

Os Estados Unidos têm um superávit comercial especialmente alto de serviços financeiros, pois as empresas americanas são importantes prestadoras de serviços bancários, de investimentos e de seguros para o mundo. Essa tendência não surpreende, pois, nas últimas décadas, as economias mais desenvolvidas do mundo (e as principais parceiras comerciais dos Estados Unidos) aumentaram seu consumo de serviços, ao mesmo tempo em que passaram a despender uma parcela menor de seu lucro com bens físicos. Para atender a essa crescente demanda, os Estados Unidos se tornaram grandes fornecedores de serviços de alto valor agregado.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos aumentaram significativamente suas exportações de bens de capital, tornando-se cada vez mais eficientes na produção desses bens e alocando uma parcela maior de recursos para sua produção. Durante a segunda metade dos anos 90, quando investimentos maciços foram feitos em equipamentos tecnológicos e avanços científicos, as exportações de bens de capital atingiram uma alta recorde, representando quase um terço de todas as receitas de exportação dos Estados Unidos (vide a tabela 1). Nos últimos 15 anos, semicondutores, computadores, equipamentos de telecomunicações e máquinas industriais têm sido os principais responsáveis pelo aumento das exportações de bens de capital dos Estados Unidos. Grande parte da demanda por esses bens vem de economias em desenvolvimento. Desde 1990, a China passou de 20º para 3º, atrás apenas do Canadá e do México, como uma dos maiores importadores de máquinas e equipamentos de transportes americanos.

Os bens de consumo também têm contribuído de forma consistente para o aumento das receitas de exportação dos Estados Unidos. A tabela 1 mostra que, como uma parcela do total de exportações, os bens de consumo duplicaram de menos de 5% há quatro décadas para quase 9% em 2006. Mais recentemente, os exportadores americanos experimentaram uma forte demanda global por brinquedos (inclusive softwares de jogos) e produtos farmacêuticos. As receitas americanas das exportações de produtos farmacêuticos quintuplicaram desde 1991 para quase US$31 bilhões em 2006.

Abastecendo-se de importados
As categorias de bens de consumo e bens de capital também aumentaram significativamente suas respectivas participações percentuais no total das importações dos Estados Unidos desde 1967. Atualmente, cada uma dessas duas categorias responde por aproximadamente 20% de todos os pagamentos de importação feitos pelos Estados Unidos (vide a tabela 2). Assim como no caso das exportações, a maior parte do crescimento das importações de bens de capital é decorrente de produtos de alta tecnologia, sendo um terço deles comprados da China e outros 30% do México, Malásia e Japão.

O fato de que os Estados Unidos tanto exportam quanto importam volumes substanciais de bens de capital (equipamentos usados para fins dede produção) indica o nível de especialização que ocorreu na economia dos Estados Unidos e do resto do mundo. Muito freqüentemente essas vendas de bens de capital são parte do comércio "intrafirma", e ocorrem quase que totalmente dentro de uma única empresa multinacional. De acordo com estimativas recentes do Federal Reserve, esse comércio "intrafirma" responde por 40% do total do comércio internacional de bens dos Estados Unidos.

O que compõe o Mix?

Os bens e os serviços importados e exportados dividem-se em várias categorias (derivadas das categorias do U.S. Bureau of Economic Analysis [BEA] – Departamento de Análise Econômica), que são classificadas de acordo com a utilização final do item.

  • Bens
  • alimentos, rações e bebidas (para consumo animal e humano)
  • bens de capital, excluídos os automotivos (principalmente equipamentos usados em produção, tais como maquinário industrial ou computadores)
  • bens de consumo, excluídos os automotivos (principalmente itens utilizados por consumidores, variando de camisetas a produtos farmacêuticos e eletrônicos)
  • suprimentos industriais (principalmente bens e matérias-primas, inclusive derivados de petróleo, que serão utilizados para produzir outros bens)
  • veículos automotivos (carros e caminhões)
  • Serviços
  • serviços de viagem (principalmente comissões de agentes de viagens)
  • bilhetes de passageiros (avião, trem, barco e outros bilhetes)
  • outros transportes (principalmente frete e tarifas de serviços portuários)
  • royalties e licenças (principalmente tarifas cobradas por empresas)
  • outros serviços privados (principalmente serviços profissionais como contabilidade, seguros e serviços educacionais)

Atualmente a maioria dos bens não é totalmente fabricada nacionalmente; pelo contrário, a produção tem se espalhado por todo o mundo para ganhar eficiência máxima. As exportações americanas, desta forma, têm alguns componentes estrangeiros, e alguns componentes dos bens que os Estados Unidos importam foram produzidos nacionalmente. O Fundo Monetário Internacional estima que a parcela de componentes fabricados nos Estados Unidos que compõem as importações americanas é de aproximadamente 30%. Com relação às exportações, em muitos dos bens fabricados nos Estados Unidos, tais como equipamentos industriais elétricos, maquinário e computadores, estima-se que os componentes importados representem pelo menos 20% dos bens finais.

Dentre as importações de bens de consumo, a categoria de produtos farmacêuticos é a que mais rapidamente tem crescido, representando atualmente cerca de 3,5% de todas as importações americanas, com um aumento de mais de 1.500% nos últimos 15 anos e responsável por quase US$65 bilhões em 2006 - mais do que o valor total das importações agrícolas dos Estados Unidos. Um quarto dessas importações é proveniente da Irlanda, principal localização estrangeira de indústrias farmacêuticas americanas.

Além de bens de consumo e de capital, os produtos derivados de petróleo sempre representaram uma parcela considerável das importações dos Estados Unidos. Na década de 70, os pagamentos aos estrangeiros pelas importações aumentaram 20%, com as importações de petróleo respondendo por mais de dois quintos desse crescimento. Essa alta foi decorrente das crises de petróleo dos anos de 1973 e 1979, quando as crises geopolíticas no Oriente Médio causaram a alta dos preços do petróleo. Tanto os preços quanto as importações de petróleo estabilizaram-se na metade dos anos 80 e durante os anos 90, mas os gastos com petróleo aumentaram consideravelmente nos últimos quatro anos. Os produtos derivados de petróleo agora respondem por cerca de 15% dos custos totais das importações americanas, sendo o Canadá, o México e a Arábia Saudita os principais fornecedores dos Estados Unidos.

Feito sob encomenda
Não é de se admirar que desde que o comércio internacional se tornou um importante componente da economia Americana, grande parte da produção atual dos Estados Unidos é destinada à venda no exterior. Conforme demonstra o quadro abaixo, ao mesmo tempo em que a participação dos bens exportados no PIB praticamente dobrou nas últimas quatro décadas passando de 7%, a participação das exportações de bens na produção de bens mais do que triplicou, tem crescido chegando a quase 40%.

Participação das Exportações dos Estados Unidos no PIB e na Produção de Bens Privados

Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis dados de Haver Analytics

A parcela de exportações da produção nacional varia de acordo com a categoria. Por exemplo, os Estados Unidos exportam aproximadamente 60% das aeronaves civis, 40% dos equipamentos de telecomunicações, 25% dos eletrodomésticos e 20% de veículos motorizados e peças automotivas. Porém, o valor das exportações em relação à totalidade da produção doméstica pode estar um tanto superestimado, pois alguns bens exportados são feitos com componentes importados.

A exportação de serviços como parcela da produção de serviços privados praticamente dobrou nos últimos 40 anos mas continua relativamente baixa, em menos de 5%. Enquanto o setor de serviços expandiu-se rapidamente nos Estados Unidos, significativas barreiras regulatórias no exterior limitam a capacidade das empresas americanas de competir com empresas nacionais de outros países, embora os Estados Unidos tenham uma vantagem competitiva global em muitos setores dedicados à prestação de serviços.

Crescimento global
A maior parte do crescimento das receitas de exportações dos Estados Unidos nos últimos 40 anos advém das exportações de serviços, bens de capital e bens de consumo, enquanto a importação de produtos derivados de petróleo, assim como bens de consumo e de capital levaram a aumentos nos pagamentos de importações feitos pelos Estados Unidos. Ao se especializar cada vez mais na produção de bens e serviços nos quais tem vantagem comparativa, a economia americana aumentou seu comércio com nações estrangeiras e redirecionou parte de seus esforços de produção para atender à demanda de serviços externos. Ao fazer isso, os Estados Unidos se tornaram parte muito mais integrada à economia mundial atual.

Este artigo foi escrito por Galina Alexeenko, analista econômica sênior, e Diego Vilán, economista, ambos do setor regional do departamento de pesquisas do Fed de Atlanta.

Tabela 1
Participação das Exportações dos Estados Unidos por Categoria (%)
1967
1977
1987
1997
2006
Bens
74,0
77,6
70,8
72,0
70,6
Alimentos, rações e bebidas
11,5
12,4
6,9
5,4
4,6
Suprimentos e materiais industriais a
23,0
20,8
18,5
16,0
18,2
Bens de capital, exceto automotivos
22,8
25,0
25,5
31,0
28,3
Veículos automotivos
6,4
8,5
7,6
7,7
7,4
Bens de consumo, exceto automotivos
4,8
5,6
5,6
8,2
8,8

Serviços
26,0
22,4
29,2
28,0
29,4
Viagem
3,7
3,9
6,5
7,7
5,9
Bilhetes de passageiros
0,9
0,9
1,9
2,2
1,5
Outros transportes
5,5
4,5
4,7
2,8
3,3
Royalties e licenças
3,9
3,1
2,8
3,5
4,3
Outros serviços privados
1,6
3,1
8,2
8,9
12,2
aIncluindo produtos derivados de petróleo
Comentários: As participações de importações não atingem 100 pois as categorias "outros" e "dispêndios com defesa direta" foram omitidas. Os dados são reportados mais como valores nominais do que valores reais, porque os valores reais podem distorcer os padrões a longo prazo. Os índices reais fixos ponderados sofrem viés de substituição, o que pode superestimar ou subestimar alguns componentes, e índices de cadeias reais sofrem de falta de aditividade, tornando impossível o cômputo das participações.
Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis, dados da Haver Analytics
Tabela 2
Participação das Importações dos Estados Unidos por Categoria (%)
1967
1977
1987
1997
2006

Bens
69,5
83,7
81,5
83,8
84,3
Alimentos, rações e bebidas
11,5
7,7
4,9
3,8
3,4
Suprimentos e materiais industriais a
30,0
43,0
21,4
19,6
26,6
Bens de capital, exceto automotivos
6,3
7,7
16,7
24,0
18,8
Veículos automotivos
6,0
10,6
16,7
13,2
11,5
Bens de consumo, exceto automotivos
10,5
12,0
17,4
18,4
19,9

Serviços
30,5
16,3
18,5
16,2
15,7
Viagens
8,0
4,1
5,8
4,9
3,2
Bilhetes de passageiros
2,0
1,5
1,4
1,7
1,3
Outros transportes
5,5
4,4
3,7
2,7
3,0
Royalties e licenças
0,5
0,3
0,4
0,9
1,2
Outros serviços privados
1,0
1,8
3,5
4,2
5,2
a Incluindo produtos derivados de petróleo
Comentários: As participações das importações não somam 100 pois as categorias "outros" e "dispêndios com defesa direta" foram omitidas. Os dados são reportados mais como valores nominais do que valores reais, porque os valores reais podem distorcer os padrões a longo prazo. Os índices reais fixos ponderados sofrem viés de substituição, o que pode superestimar ou subestimar alguns componentes, e índices de cadeias reais sofrem de falta de aditividade, tornando impossível o cômputo das participações.
Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis, dados da Haver Analytics