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A Tempestade de Crédito Está Afundando o Comércio Global O comércio internacional, que já foi o esteio do crescimento econômico mundial, está agora afundando nos revoltos mares financeiros que estão engolfando o mundo. À medida que os custos do crédito disparam e os fornecedores de crédito privado tornam-se menos dispostos ou capazes de financiar o comércio internacional, os governos e as organizações multilaterais estão tendo que sustentar o crédito para ajudar o comércio internacional a não afundar.
O comércio internacional, especialmente nos países em desenvolvimento, depende em grande parte da disponibilidade de crédito para financiar as atividades do fluxo comercial. Por exemplo, os exportadores frequentemente necessitam de financiamento para fabricar os produtos antes de receber o pagamento de seus compradores. Enquanto isso, os importadores precisam de crédito para comprar mercadorias de outros países, tais como materiais e máquinas. De forma geral, o comércio internacional de mercadorias responde por cerca de US$14 trilhões por ano e, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC), 90% dessas transações envolvem operações de financiamento ao comércio internacional. O crédito relacionado ao comércio internacional é fornecido principalmente pelos bancos, via cartas de crédito, cujo objetivo é garantir o pagamento ao exportador. As cartas de crédito demonstram que as empresas têm capacidade de pagar e permite aos exportadores embarcar a carga com a certeza de receber o pagamento.
Um simples exemplo demonstra como o crédito relacionado ao comércio internacional normalmente funciona (see the flowchart). A Empresa A, localizada na República A, deseja comprar mercadorias da Empresa B, localizada no País B. As duas empresas celebram um contrato de compra e venda pelo preço de US$100.000,00. A Empresa A então solicita ao seu banco, Banco Prime A a emissão de uma carta de crédito no valor de US$100.000,00, tendo a Empresa B como beneficiária. (A carta de crédito pode ser emitida por meio de um processo de empréstimo padrão ou financiada mediante um depósito e uma taxa correspondente). O Banco Prime A envia uma cópia da carta de crédito ao Banco B, que informa a Empresa B que o seu pagamento estará disponível quando os termos e as condições da carta de crédito tiverem sido cumpridos – normalmente após o recebimento dos documentos de embarque. Uma vez verificados esses documentos, o Banco Prime A transfere o valor de US$100.000,00 para o Banco B, para crédito da Empresa B.
Os exportadores e os importadores ficaram sem recursos devido à escassez de crédito Os exportadores e importadores de economias emergentes podem estar particularmente vulneráveis, pois dependem mais significativamente do financiamento ao comércio internacional. Um estudo da OMC sobre os efeitos das crises financeiras sobre as economias emergentes nos anos 90 demonstra que, em alguns países, o não atendimento pelos mercados privados da demanda por financiamento ao comércio internacional de curto prazo afetou as importações e as exportações, chegando, em alguns momentos, a paralisar totalmente o comércio internacional. Considerando que cerca de 40% das exportações dos Estados Unidos são embarcadas para países em desenvolvimento, a incapacidade dos importadores desses países de financiar suas compras de mercadorias feitas nos Estados Unidos poderá ter um impacto negativo sobre os setores de exportação americanos, que já estão sofrendo com a queda na demanda externa em virtude da desaceleração da economia mundial. Uma prova da atual situação do comércio global é o Baltic Dry Index – uma média diária de preços para o transporte marítimo de matérias-primas que serve como estimativa indireta do fluxo do comércio internacional – que despencou mais de 90% desde seu pico em junho de 2008 (see the chart). Essa queda pode ser atribuída não apenas à redução da demanda global, mas também à diminuição da disponibilidade de financiamento ao comércio internacional necessária para o atendimento da demanda ainda existente. De acordo com o Wall Street Journal, no Brasil, - considerado uma das principais potências exportadoras emergentes - os exportadores estão enfrentando dificuldades na obtenção de crédito para financiar seus negócios. Algumas empresas brasileiras precisam de crédito denominado em dólares para conseguirem exportar e importar, mas o custo do crédito agora está tão alto que ultrapassa as margens de lucro, e as empresas não conseguem fazer negócios. Para o Brasil, que embarca de tudo desde carne bovina de atacado até aviões a jato, e cujas exportações somaram aproximadamente US$300 bilhões em 2008, um arrocho assim tão severo no crédito pode trazer sérias implicações ao crescimento econômico.
A economia da China, que já ultrapassou a da Alemanha e tomou-lhe o lugar de terceira maior economia mundial, também está sofrendo com a falta de acesso a financiamento ao comércio internacional. Em termos nominais, as exportações da China têm caído nos últimos meses depois de crescerem cerca de 20% durante a maior parte de 2008. Embora a principal causa desse declínio seja a diminuição da demanda global, as difíceis condições para garantir crédito ao comércio internacional estão prejudicando os exportadores chineses que, de outra forma, seriam capazes de atender à demanda existente. O presidente da China Export Finance, uma das principais empresas de financiamento internacional, estima que as cartas de crédito foram responsáveis por cerca de 70% dos financiamentos à exportação na China em 2007; atualmente essa participação é de apenas 30% a 40%, em parte, devido ao desgaste na confiança ao sistema bancário internacional. A escassez de crédito ao comércio internacional e a redução da demanda global estão tendo agora um efeito negativo expressivo sobre o consistente desenvolvimento econômico da China. A redução do comércio global está fazendo parar a produção industrial, pois muitos fabricantes dependem de materiais fornecidos por países estrangeiros. Algumas fornecedoras chinesas que já estão operando com pequenas margens de lucro estão fechando as portas. O Grupo Li & Fung, uma empresa de gestão de cadeia de fornecimento que lida principalmente com fábricas na China e comerciantes nos Estados Unidos e na Europa, estima que 10.000 das 60.000 fábricas na China de propriedade de participações de Hong Kong fecharam ou fecharão suas portas até o início de 2009. Agências governamentais jogam uma tábua de salvação O Export-Import Bank dos Estados Unidos (Ex-Im Bank) é a agência oficial do governo para crédito à exportação e tem como missão ajudar no financiamento das exportações de mercadorias e serviços dos Estados Unidos para mercados internacionais. Por exemplo, em novembro de 2008 o Ex-Im Bank anunciou que fornecerá até US$2,9 bilhões em seguro de crédito para as instituições financeiras coreanas. No ano de 2008 o Ex-Im Bank autorizou US$14,4 bilhões em empréstimos, garantias e seguro de crédito em todo o mundo, estimados para contribuir com US$19,6 bilhões das exportações americanas. No Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social começou a oferecer os mesmos instrumentos de garantia oferecidos pelas agências de crédito à exportação, bem como assistência financeira às empresas para incentivar as exportações brasileiras. Além disso, o Banco Central do Brasil utilizou bilhões de dólares de reservas para ajudar os bancos a fornecerem crédito denominado em dólares.
A gravidade da crise financeira levou a uma maior cooperação global, inclusive na área de financiamento ao comércio. Em novembro de 2008 a OMC organizou uma reunião de representantes de bancos privados, instituições financeiras internacionais e agências de crédito à exportação na qual todos concordaram que o mercado de financiamento ao comércio internacional estava profundamente deteriorado. Para aliviar o problema, o Banco Mundial anunciou que iria triplicar, para US$3 bilhões, o teto das garantias que oferece para financiamento ao comércio internacional . Uma segunda reunião na OMC está marcada para março, para analisar a situação e considerar a adição de outros recursos. Em dezembro de 2008 os Estados Unidos e a China concordaram em fornecer conjuntamente um total de US$20 bilhões, por meio de seus bancos de exportação-importação, para sustentar as exportações de produtos dos Estados Unidos e da China para as economias emergentes. O programa será implementado sob a forma de empréstimos diretos, garantias ou seguro para bancos com capacidade creditícia. Os dois países esperam que esses esforços gerem financiamento ao comércio internacional de até US$38 bilhões em exportações durante o próximo ano. Quebrando o ciclo Este artigo foi escrito por Galina Alexeenko e Sandra Kollen, analistas sêniores de pesquisas econômicas do departamento de pesquisas do FED de Atlanta. |